Existe uma pergunta que acompanha praticamente toda tatuagem: “qual o significado?”.
E não é difícil entender por quê. Muitas tatuagens realmente nascem de histórias importantes. Algumas marcam fases da vida, outras homenageiam pessoas, registram conquistas, despedidas ou lembranças que alguém decidiu carregar para sempre.
Essas tatuagens existem e sempre fizeram parte da cultura da tatuagem.
Mas existe um outro lado que raramente recebe a mesma atenção.
A ideia de que toda tatuagem precisa ter um significado acabou se tornando tão comum que muita gente estranha quando descobre que algumas pessoas simplesmente tatuam porque gostam. Gostam da arte, dos estilos, dos artistas ou da própria experiência de serem tatuadas. Para quem nunca viveu isso, pode parecer uma explicação superficial. Para quem convive com a tatuagem há anos, nem tanto.
Quando alguém faz a primeira tatuagem, normalmente tudo gira em torno do desenho. A escolha costuma ser cuidadosa. As referências ficam salvas por semanas. A decisão é pensada, repensada e frequentemente acompanhada da necessidade de explicar por que aquele desenho merece ocupar um espaço permanente na pele.
Mas para algumas pessoas a relação com a tatuagem muda com o tempo.
Quem já passou da primeira, da quinta ou da décima tatuagem sabe que nem sempre a próxima começa com um desenho específico. Às vezes acontece exatamente o contrário. Surge primeiro a vontade de tatuar. O desenho vem depois.
É uma lógica que parece estranha para quem está de fora. Afinal, o esperado seria encontrar uma arte e então decidir levá-la para a pele. Mas muitas pessoas vivem o processo inverso. Elas sabem que querem mais uma tatuagem antes mesmo de saber qual será.
A partir daí começam as buscas por referências, as conversas com tatuadores, as ideias guardadas no celular e aquela sensação familiar de que ainda existe espaço para acrescentar mais uma peça ao que vem sendo construído há anos.
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis de explicar para quem nunca se tatuou.
Porque existe uma dimensão da tatuagem que não aparece em nenhuma foto.
A foto mostra o resultado. Mostra a tinta, os traços e as sombras.
Mas não mostra a expectativa antes da sessão. Não mostra a conversa em que uma ideia começa a ganhar forma. Não mostra as horas passadas na cadeira, nem os primeiros dias de cicatrização. Também não mostra o momento em que a tatuagem deixa de ser novidade e passa a ser simplesmente parte de você.
Para muita gente, é justamente nesse processo que está uma parte importante da experiência.
Isso não significa que os significados desapareceram. Eles continuam existindo. Há tatuagens que carregam histórias profundas e outras que nasceram de momentos importantes da vida.
Mas também existem tatuagens que surgiram da admiração por uma arte, da vontade de colecionar trabalhos de determinados artistas ou simplesmente da satisfação de acrescentar mais uma peça a algo que ainda está em construção.
Nenhuma dessas motivações explica toda a cultura da tatuagem. Talvez porque ela nunca tenha cabido em uma única explicação.
Algumas pessoas carregam histórias na pele.
Outras carregam arte.
E muitas carregam um pouco de cada coisa.
Talvez seja por isso que a pergunta sobre significado nem sempre encontre a resposta que as pessoas esperam.
Às vezes existe uma grande história por trás da tatuagem.
Às vezes existe apenas um desenho que alguém gostou.
E, depois de muitos anos convivendo com a tatuagem, muita gente descobre que essa diferença nem sempre importa tanto quanto parece.
Porque, em algum momento, a tatuagem deixa de ser apenas uma escolha isolada e passa a fazer parte da forma como aquela pessoa se enxerga.
A próxima sessão já está sendo pensada.
A próxima ideia já começou a aparecer.
E a coleção continua.
Não porque as anteriores perderam valor.
Mas porque, para algumas pessoas, gostar de tatuagens e gostar de ser tatuado acabam se tornando parte da mesma coisa.