Perfis de motoclubes participando de debates políticos nas redes sociais não são exatamente uma novidade. O problema também não está no fato de motociclistas terem opiniões sobre governos, eleições ou os rumos do país. Afinal, fazem parte da sociedade como qualquer outra pessoa.
Também não se está falando aqui dos clubes em que esse tipo de posicionamento faz parte da cultura do grupo e é conhecido por todos os integrantes. Quem entra sabe exatamente onde está entrando.
A questão surge quando um perfil “oficial” de motoclube passa a publicar opiniões políticas que pertencem apenas a quem administra a página.
E esse fenômeno parece cada vez mais comum.
O motociclista entra no perfil esperando encontrar motos, estrada, viagens, eventos, ações sociais, histórias e atividades do clube. Em vez disso, encontra memes políticos, provocações, ataques a adversários ideológicos e conteúdos cuja única finalidade parece ser ridicularizar quem pensa diferente.
Nesse momento surge uma pergunta inevitável: quem está falando?
O motoclube ou apenas a pessoa que está com a senha do Instagram?
Um motoclube é formado por indivíduos diferentes. Pessoas que compartilham a paixão pelas motos e pela estrada, mas que nem sempre compartilham as mesmas opiniões sobre política, religião, economia ou qualquer outro tema que divide a sociedade.
Talvez uma das maiores riquezas da cultura motociclística seja justamente essa capacidade de reunir pessoas que, fora daquele ambiente, provavelmente discordariam sobre diversos assuntos.
É por isso que transformar o perfil oficial em uma extensão das disputas políticas das redes sociais parece uma decisão questionável.
Quem está de fora não conhece os bastidores do clube, sua diretoria ou quem administra a página. O que ele vê é apenas o brasão e, naturalmente, tende a interpretar aquela publicação como uma posição oficial do motoclube.
Mas será que ela realmente representa todos?
É pouco provável que dezenas de pessoas compartilhem exatamente as mesmas opiniões sobre todos os assuntos políticos discutidos diariamente nas redes sociais. Ainda assim, basta uma publicação para que a posição de uma pessoa seja interpretada como a posição de todos.
E isso leva a uma situação curiosa.
Muitos dos mesmos perfis que falam sobre respeito, irmandade, liberdade e união acabam reproduzindo exatamente o comportamento que dizem combater. Em vez de promover diálogo, passam a compartilhar conteúdos cujo objetivo é provocar, ridicularizar ou desqualificar quem pensa diferente.
A discussão deixa de ser sobre ideias e passa a ser sobre lados. Deixa de ser sobre convivência e passa a ser sobre vencer uma disputa. O objetivo deixa de ser representar um motoclube e passa a ser acumular curtidas, aplausos e aprovação de quem já concorda, enquanto qualquer discordância é tratada como algo a ser combatido.
Tudo isso usando o nome e o brasão de um motoclube.
O problema não está em ter opinião política. Motociclistas continuarão apoiando candidatos, criticando governos e discordando uns dos outros, como sempre aconteceu e sempre acontecerá.
A questão é outra.
Quando um perfil institucional passa a reproduzir memes políticos, provocações e disputas ideológicas, opiniões individuais começam a ser apresentadas como posições coletivas.
E é justamente aí que surge a distorção.
O que deveria representar uma irmandade passa a representar a visão de quem administra a página.
O que deveria aproximar pessoas através do motociclismo passa a reforçar divisões que nada têm a ver com a estrada.
O brasão de um motoclube representa todos os seus integrantes. Por isso, deveria ser usado para fortalecer aquilo que os une: as histórias, as viagens, os valores compartilhados e a paixão pelo motociclismo.
No final das contas, o brasão representa o clube.
A opinião política representa quem a emitiu.